terça-feira, 29 de outubro de 2013

mané garrincha o craque do riso

(almandrade - instalação / 1979 - "pense o jogo")


MANÉ GARRINCHA UM CRAQUE DO RISO
Por Almandrade 
(para lembrar os 80 anos do palhaço da bola)

O personagem mais singular da história do futebol, Mané Garrincha, não era um atleta, talvez um artista, com certeza um craque da humildade, virtuoso e estilista, que encontrou no drible uma forma de encantar a vida. Mais do que um jogador genial, ele transformou o futebol num espetáculo delirante cujo objetivo principal não era ganhar ou perder, e sim o riso. O próprio declara numa entrevista: “Para ser sincero eu preferia driblar a fazer gol, mas como a única maneira de ganhar os jogos era colocando a bola na rede, de vez em quando eu fazia meus golzinhos”. Quando Garrincha jogava o estádio parecia mais um teatro ou um circo.

Chamou a atenção do mundo com seus dribles precisos e desconcertantes, improvisados na hora certa de suas pernas tortas que bailavam contrariando a anatomia, um Charlie Chapin alegrando multidões. Sempre cordial e imarcável, ingênuo até. Deixava o marcador perdido, sem saber o que fazer no gramado, era certo sua passagem pela direita, mas ninguém tinha certeza do momento. Para as torcidas que não economizavam gargalhadas, até mesmo a adversária, não interessavam mais o resultado do jogo, e sim contemplar o show do craque. Um “santo do riso”, alegria dos que tiveram o privilégio de assisti-lo. “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”, palavras do poeta maior Carlos Drummond de Andrade.

Garrincha foi um caso aparte, uma exceção. Sua relação poética e lúdica com a bola era de um deus brincando com o mundo para divertir seus santos. Na elegante crônica do escritor, dramaturgo e jornalista esportivo Nélson Rodrigues, Garrincha não precisava pensar: “Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega sempre antes, sempre na frente, porque jamais o raciocínio do adversário terá a velocidade genial do seu instinto”. Um bailarino? Desafiou, subverteu as concepções do futebol europeu e solicitou do espectador outra atenção e sensibilidade para o jogo. Mané é uma referência inédita para um futebol que não mais existe.

Jogar bola para ele era uma forma de encarar a vida, não importava a partida, fosse da copa do mundo ou uma pelada entre amigos, o prazer era o mesmo. E a vida, é uma brincadeira que passa rápido, como passou a agilidade de suas pernas, vencido pelo cansaço, pela boemia e pelo álcool, a alegria foi finalizada pelo apito do tempo. “A tristeza não tem fim, felicidade sim.” diz a indiscutível perfeição da voz de João Gilberto na brilhante interpretação da canção de Tom e Vinícius.


Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

edicaolimitadadegravuras.com.br/almandrade.html


Prezado,

o coordenador do NAC (Núcleo Artístico e Cultural) da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso) Sady Bianchin, tem o prazer de convidá-lo para o coquetel de abertura do projeto "Rio de Versos- II Mostra Brasileira de Poesia" dia 30 /10 às 18h na biblioteca da Facha, (Rua Muniz Barreto, 51 Botafogo) com a exposição “Experimentalidades Idiossincréticas” de Tchello d'Barros.


Atenciosamente
Natalia Lessa
NAC FACHA





com os dentes cravados na memória soletro teu nome i t a b i r a pedra que brilha em minha carne encravada dentro a terra no silêncio absoluto santa ira santa quando berra em tudo que se encerra no cerne do minério bruto

Artur Gomes
www.artur-gomes.blogspot.com






Jura Não Secreta

quero dizer que ainda arde tua manhã em minha tarde a tua noite no meu dia tudo em nós que já foi feito com prazer ainda faria quero dizer que ainda é cedo ainda tenho um samba/enredo tudo em nós é carnaval é só vestir a fantasia quero ser teu mestre/sala e você porta/bandeira quando chegar na quarta-feira a gente inventa outra fulia.

Artur Gomes 
www.pelegrafia.blogspot.com




o amor não apenas uma nome que anda por sobre a pele um dia falo letra por letra no outro calo fome por fome é que a flor da tua pele consome a pele do meu nome

artur gomes
www.artur-gomes.blogspot.com




Jura Secreta 54

moro no teu mato dentro não gosto de estar por fora tudo que me pintar eu invento como o beijo no teu corpo agora desejo-te pelo menos enquanto resta partícula mínima micro solar floresta sendo animal da mata  atlântica quântico amor ou meta física tudo que em mim não há respostas metáfora d´alquimim fugaz brazílica beijo-te a carne que te cobre os ossos pele por pele pelas tuas costas
os bichos amam em comunhão na mata como se fosse aquela hora exata em que despes de mim o ser humano
e no corpo rasgamos todo pano e como um deus pagão pensamos sexo.

artur gomes
www.tvfulinaima.blogspot.com



em frente em mim agora montanhas por trás dos edifícios a lírica passeia lá fora foi dar um mergulho entre as aves que despertam meu sentido pássaro para que mesmo entre um vôo e outro não tire os meus pés do chão




Jogo de Búzios

Ogum não permitiu que Iansã doasse o coração para xangô e deu-se num trovão pela manhã o seu amor Oxossi em cada um Exu de sangue e ferro então mandou cortar meu coração em mais pedaços assim se fez sem nenhum berro por isso tens-me aqui entre os seus braços oxalá então cantou vendo a magia fez a terra estremecer de africania América quem sabe porque canto de alegria quando choram nos meus olhos todos mares da Bahia fazendo um doce mar ficar Oxum um velho doce mar ficar Oxum

arturgomes/paulo ciranda
www.goytacity.blogspot.com

domingo, 6 de outubro de 2013

poesia do brasil


Em face do mistério

minha sina é uma canção
de amor no temporal.
desliza sobre mares
rola sob viadutos
ruínas e paixões.

meu coração quasar rasante
(vale-transporte para a  via láctea)
brota sob o carpete.
sobre os alagados
e as cinzas do não.

(ó sina que me arremessa
na canção do temporal!)

do acervo do não ser
a essência das coisas range
pedindo para nascer.

Salgado Maranhão
do livro a Cor da Palavra
Prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011



Desastre

Há quem pretenda
       que seu poema seja
        mármore
        ou cristal - o meu
o queria pêssego
                pera
                banana aprodecendo num prato
e se possível
numa varanda
onde pessoas trabalhem e falem
e donde se ouça
                            o barulho da rua.
                  Ah quem me dera
                  o poema podre!
a polpa fendida
                   exposto
o avesso da voz
                                   minando
                     no prato
o licor a química
                     das sílabas
                      o desintegrando-se cadáver
                      das metáforas
                       um poema
                       como um desastre em curso.

Ferreira Gullar
Ed. Grafite - XXI Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves-RS - outubro 2013




De caça a caçador

Para alcançar palavras que nos fogem
preciso é acarpetar os passos
velar de espesso véu nosso desejo
e esperá-las
caiados
de tocaia.
Sempre haverá um momento
de descuido
em que a palavra
recolhidas asas
pousará sobre a língua
e será nossa.

Entrementes
há que tomar cuidado.
Assim com as caçamos
palavras há também 
em cada esquina
prontas
com unha e dente
a nos saltar em cima.

Marina Colasanti
Poesia do Brasil - Vol. 17
Ed. Grafite - XXI Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves-RS - outubro 2013




Da inutilidade


muito
que
me 
cansam
estas
bocas
mudas
que 
não
mudam
nada

Ademir Antônio Bacca
Poesia do Brasil - Vol. 17
Ed. Grafite - XXI Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves-RS - outubro 20139
www.ademirbacca.blogspot.com 




Poética 9

eu sou drummundo
e me confundo
na matéria amorosa
posso estar
na fina flor da juventude
ou atitude
de uma rima primorosa
e até na pele/pedra
quando invoco
me desbundo
e baratino
então provoco
umbarafundo cabralino
e meto letra
no meu verso
estando prosa
e vou pro fundo
do mais fundo
o mais profundo
mineral
guimarães rosa

Artur Gomes
Poesia do Brasil - Vol. 17
Ed. Grafite - XXI Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves-RS - outubro 2013